Reflexões, riscos e caminhos para um uso consciente da inteligência artificial no cotidiano, na educação e no bem-estar.
IA, Emoções e o Futuro: Como Proteger a Saúde Mental na Era Digital
O Brasil já é o segundo país do mundo que mais utiliza IA generativa. Em um cenário cada vez mais digital, alguns questionamentos se tornam urgentes. Como proteger as crianças e jovens sem o extremismo da proibição? Será que os Chatbots são realmente confiáveis para abordagens psicoterapêuticas? É possível usar as IAs de forma ética, saudável e como ferramenta de apoio?
Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, 65% das crianças e adolescentes brasileiros entre 9 e 17 anos utilizam ferramentas de IA para estudar, criar conteúdo ou lidar com emoções. Esses dados são crescentes, chegando a 75% entre adolescentes de 13 a 17 anos. Mas o uso não é simplesmente para pesquisas escolares. O estudo aponta que 10% conversam com IA sobre sentimentos ou problemas pessoais.
Esses índices mostram que essa geração hiperconectada (que já nasce com um celular nas mãos) vê a IA como aliada para aprender, se expressar e até buscar apoio emocional. Isso acende uma série de alertas sobre dependência, privacidade e desenvolvimento emocional (que pode ficar bastante comprometido com o uso inadequado dos Chatbots).
A neurociência mostra que o cérebro jovem é altamente plástico, ou seja, se adapta com uma facilidade extrema, mas é bastante imaturo para lidar com frustrações. As respostas rápidas, pra não dizer imediatas, dos chatbots de IA com tendências altamente favoráveis ao usuário liberam dopamina e podem levar ao vício. Alguns jovens, inclusive, estão substituindo relações reais por conversar com IA, isso porque relacionamentos humanos exigem empatia e resiliência sinceras, enquanto que os robôs apenas simulam essas características para beneficiar seu usuário. As IAs não foram programadas para frustrar os seres humanos, e por isso, boa parte das respostas são “Eu entendo você, você está certo”, alimentando cada vez mais a dificuldade em lidar com emoções e contrariedades de ideias.
De acordo com um estudo realizado pelo CDT (Center for Democracy and Technology) 42% dos estudantes já tiveram, ou conhecem quem teve, envolvimento afetivo com uma IA. Em dezembro de 2025 repercutiu a matéria de uma japonesa que se casou com uma personagem do ChatGPT, mostrando que, o que até pouco tempo atrás soaria como utopia, ficção científica ou história de filmes futuristas, já está acontecendo!
IA na Educação de jovens: Oportunidades e Riscos
Na educação a IA deve ser entendida como ferramenta cultural, não substituta do professor, tão pouco do pensamento lógico, crítico e da autoria intelectual dos alunos. A BNCC e a UNESCO reforçam o papel do educador em formar estudantes críticos, capazes de fazer uma curadoria, ou seja, checar fontes e avaliar informações, especialmente as fornecidas por IA’s. Lembrando que as próprias ferramentas de Chatbots de inteligência artificial alertam que podem cometer erros e, por isso mesmo, é necessário verificar outras fontes. Protocolos claros e a regulamentação do uso da IA são essenciais para um melhor uso dessa ferramenta.
Entre os principais riscos do uso da IA na educação pode-se destacar as informações falsas, vieses do próprio algoritmo, uso indevido de dados e o risco de desenvolvimento de dependência. As ferramentas de Chatbot podem auxiliar o pensamento crítico desde que seja incentivada a formulação de perguntas reflexivas em vez de respostas prontas. Se ao invés de perguntar “Qual é a resposta deste problema matemático” o aluno perguntar “De que forma posso interpretar este problema para iniciar a solução?” o próprio estudante induzirá a ferramenta à auxiliar seu pensamento lógico, crítico e racional em busca da solução, e não em fornecer simplesmente a resposta.
Chatbots de IA como “Terapia”: Riscos, Limites e Casos de Dependência.
Chatbots como o ChatGPT se popularizaram nos últimos 4 anos como “portos seguros” digitais, oferecendo apoio emocional 24 horas por dia, e à apenas um toque do celular. Para casos leves de ansiedade os resultados podem ser satisfatórios, mas também existem riscos claros: dependência emocional, isolamento e atraso na busca por ajuda profissional.
A IA não compreende emoções humanas de forma autêntica e tende a dar respostas padronizadas, muitas vezes a favor do reclamante. Isso pode agravar quadros de depressão e ansiedade, sobretudo em jovens vulneráveis, com riscos de casos extremos, como incitar automutilação e suicídio. Casos como esses vêm sendo registrados após interações intensas com chatbot.
As consequências da dependência de uma IA apresentam os mesmos sintomas de qualquer outro tipo de vício: ansiedade de abstinência, abandono de rotinas e atividades que antes eram prazerosas, preferência por contato virtual e isolamento social. Segundo o British Medical Journal, um terço dos adolescentes já usa IA para socialização, e 10% preferem conversar com chatbots do que com humanos.
A IA pode auxiliar no autocuidado com alertas e notificações, orientações e dicas práticas, mas jamais substitui um profissional da área da saúde mental. Tratamentos sem intervenções personalizadas e empatia real, gerados através de “receitas de bolo” serão ineficazes e podem piorar o quadro. Muitos usuários dessa ferramenta sequer informam seus terapeutas sobre o uso de IA como terapeuta digital, o que pode prejudicar tratamentos e gerar abandono de acompanhamento profissional.
Preocupações de Pais e Legisladores: Como Falar Sobre IA com Adolescentes.
Apesar de mais da metade dos pais se considerar informada sobre as atividades online dos filhos, poucos conversam ou estabelecem regras claras para o uso de tecnologia, telas e celulares. Projetos de lei como o 1971/25 propõem mediação obrigatória de adultos no uso de dispositivos por crianças de 2 a 6 anos, reconhecendo riscos do ambiente digital desde cedo.
A Lei nº 15.211/2025, o “ECA Digital”, estabelece medidas preventivas contra conteúdos nocivos, impõe verificação etária e ferramentas de supervisão parental, e proíbe publicidade direcionada para crianças. O objetivo é promover um uso mais seguro, equilibrado e saudável dos serviços digitais, protegendo a saúde mental de crianças e adolescentes. A lei entra em vigor em março de 2026, com prazo de adaptação para as plataformas.
Como Iniciar Conversas Sobre IA com Adolescentes

O ideal é adaptar a conversa ao nível de compreensão e interesse dos jovens, usando exemplos do cotidiano, promovendo reflexões e incentivando o pensamento crítico. O guia da OpenAI para famílias sugere explicar como a IA funciona, que ela pode errar, a importância de verificar informações e como gerenciar dados e configurações.
Aqui vão algumas dicas práticas para iniciar uma conversa franca, aberta e sincera sobre o assunto com os jovens.
Sugestão de dicas práticas:
- Use exemplos do dia a dia, como recomendações de vídeos, propagandas ou playlists automáticas.
- Estimule perguntas: “Como eles sabem tanto a nosso respeito pra recomendar exatamente isso? Como o robô sabe o que eu quero? Como a IA aprende?”
- Fale sobre questões éticas como “Você acha justo que uma máquina tome certas decisões por você?”
- Estimule a criança a pensar sobre limites: “O que a IA deve ou não fazer? No futuro a IA pode substituir você como você tem usado para substituir outras pessoas?”
A escola também pode criar diretrizes claras para o uso da IA, envolvendo professores, estudantes e famílias na construção de regras coletivas. Protocolos institucionais, inspirados em documentos da UNESCO, ajudam a garantir o uso ético, responsável e crítico da tecnologia.