Entenda como as memórias falsas podem surgir e como utilizar o conceito de reconsolidação da memória no dia a dia para lidar com traumas.
Memórias falsas: por que as lembranças mudam
Talvez você se lembre da sua infância e adolescência como um tempo mágico, em que tudo era lindo, gostoso, agradável e parecia um mundo de Alice; ou talvez suas memórias desse período sejam um tanto tenebrosas, cheias de momentos de tristeza, dor ou sofrimento. A verdade é que, tanto em um caso quanto no outro, essa imagem mental pode estar bastante distorcida. Um fato curioso e pouco conhecido, é que podemos ser enganados por memórias falsas, uma vez que elas são alteradas constantemente. Isso se explica pela teoria da reconsolidação da memória.
Consolidação de memória e aprendizagem
Para compreender melhor esse conceito, é importante entender um pouco mais sobre o funcionamento cerebral no processo de aprendizagem e memorização. Ao vivenciar ou aprender algo novo, seu cérebro capta as informações por meio da atenção e da memória de trabalho. Momentos depois, inicia-se o processo de consolidação sináptica, ou seja, há alteração local das sinapses e síntese de proteínas que estabilizam o traço da memória.
Depois disso, o cérebro começa a reorganizar as informações em larga escala, e estruturas como o hipocampo passam a dialogar com áreas corticais para tornar a memória menos dependente da região inicial. Isso pode levar dias, meses ou anos.
A consolidação da memória está diretamente atrelada à qualidade do sono, porque é neste período que as informações são revisitadas, filtradas e processadas. Em outras palavras, no sono o cérebro revisa o que foi vivenciado e aprendido, selecionando o que deve ser reforçado e o que tende a ser descartado.
Reconsolidação e alterações da memória
Mas a nossa memória não funciona como um armazenamento em nuvem, em que basta clicar, fazer o download e todo o arquivo será exibido na sua tela. Imagine que cada memória seja um jogo de quebra-cabeça. Para armazenar as informações, o cérebro as “fraciona” em pequenos pedacinhos. Ao se lembrar, é como se a sua mente precisasse remontar rapidamente esse quebra-cabeça. E é aqui que entra a reconsolidação de memórias.
Durante esse processo de relembrar uma experiência, a memória entra temporariamente em um estado de vulnerabilidade e instabilidade, tornando-se plástica e maleável. Em outras palavras, ela fica mais suscetível a alterações. Isso significa que, a cada vez que você se recorda de algo, essa memória pode ser modificada, o que pode levar à alteração, adição ou remoção de algum elemento, fato, contexto ou até da carga emocional associada.
Ou seja, em algum grau, nossas memórias podem ser falsas. Elas podem ter sido alteradas várias vezes. É por esse motivo que duas pessoas que vivenciaram uma mesma experiência podem contar o ocorrido de formas distintas. Às vezes, não é por maldade nem por mentira: a pessoa pode ter modificado aquela memória tantas vezes que já nem se lembra exatamente de como tudo aconteceu. Sabe aquela sensação de “será que eu vivi isso, sonhei ou alguém me contou?” Ela também pode ser fruto da reconsolidação da memória.
Memória emocional e cargas traumáticas
Então é muito provável que sua infância não tenha sido nem um conto encantado da Disney nem um filme de terror. Suas memórias apenas podem ter sido alteradas. Isso nos leva a um ponto importante: uma vez que elas podem ser modificadas, traumas, medos e memórias negativas também podem estar sujeitos a esse processo. A esse conceito chamamos de reconsolidação terapêutica da memória.
A hipnoterapia e a regressão aplicadas a situações traumáticas e memórias que geram sintomas, buscam acessar novamente esses conteúdos e aproveitar o momento em que eles se apresentam mais instáveis e plásticos para tratá-los. É usar a falha do sistema contra o próprio sistema.
Obviamente, isso não significa dizer que é possível apagar ou alterar completamente uma memória a ponto de ela simplesmente deixar de existir. Não dá para transformar uma lembrança traumática, como um abuso, em um domingo no parque em família. De modo geral, temos o conteúdo factual e a carga emocional da memória. A hipnose e a regressão trabalham principalmente com a memória emocional.
O fato consumado já aconteceu; não tem como apagá-lo. Mas podemos trabalhar com a carga emocional associada a ele. Assim, o que antes parecia uma bomba atômica de destruição emocional passa a ser percebido como um episódio neutro, e os sintomas perdem força.
Como aplicar esse princípio no dia a dia
Você também pode aproveitar esse “bug” do sistema de modo simples. Para exemplificar, vou usar o caso de uma pessoa que tenha pavor de falar em público, mas você pode imaginar algo mais próximo da sua realidade. Todas as vezes que essa pessoa pensa em fazer uma apresentação, realizar uma palestra ou precisar conversar em um grupo de desconhecidos, os sintomas disparam: vem o frio na barriga, as mãos transpiram, o coração acelera e o medo se instala.
É importante que, tão logo os sintomas se manifestem, seja iniciado o processo inverso: respirar fundo, segurar o ar por alguns segundos e soltar pela boca; mentalizar-se calmo, tranquilo e capaz de falar, apresentar a palestra ou conversar com o grupo em questão. Comece pequeno e vá aumentando a carga, como nos exercícios de academia.
A memória precisa ser desconstruída para que uma nova versão seja reconstruída. Nas primeiras vezes, o exercício pode ser difícil, e sua mente pode tentar sabotar você, trazendo novamente o medo e os sintomas. Não desista! É um processo que leva tempo. O medo e o trauma foram reforçados por anos; não é do dia para a noite que eles desaparecerão. Mas você consegue.
Passo a passo prático
Em resumo, siga estes passos gerais:
- Identifique uma situação que você gostaria de mudar em sua vida e que se apresenta com sintomas — por exemplo: medos em geral, insegurança etc.;
- Ao identificar a aproximação dessa situação e perceber que os sintomas começam a se manifestar, procure respirar fundo, reter o ar por alguns segundos e soltar pela boca;
- Enquanto respira, faça aproximações sucessivas do seu objetivo, ou seja, imagine o inverso do problema — por exemplo: ser mais confiante, sentir-se seguro, falar em público etc.;
- Repita o processo sempre que precisar, aumentando gradualmente a intensidade — por exemplo: aumentando o número de pessoas na plateia, o grau de autoconfiança etc.
Conclusão
Esse processo pode auxiliar, pouco a pouco, no seu caminho de cura emocional. Não se esqueça de que é importante não desistir.
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Descubra mais sobre Guilherme Biotto – Terapeuta Holístico, Mentor e Palestrante
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